MÃOS ENFERRUJADAS - Humberto de Campos

Jefferson Severino - 15/10/2018 SC 01571 JP

MÃOS ENFERRUJADAS
Humberto de Campos

 
Quando Joaquim Sucupira abandonou o corpo, depois dos sessenta anos, deixou-nos conhecidos, a impressão de que subiria incontinenti aos Céus.
 
Vivera arredado do mundo, no conforto precioso que herdara dos pais. Falava pouco, andava menos, agia nunca. Era visto invariavelmente em trajes impecáveis. A gravata ostentava sempre uma pérola de alto preço, pequena orquídea assinalava a lapela, e o lenço, admiravelmente dobrado, caía irrepreensível, do bolso mirim. O rosto denunciava-lhe o apurado culto às maneiras distintas. Buscava, no barbeiro cuidadoso cada manhã, renovada expressão juvenil. Os cabelos bem postos, embora escassos, cobriam-lhe o crânio com o esmero possível.
 
Dizia-se cristão e, realmente, se vivia isolado, não fazia mal sequer a uma formiga.
 
Assegurava, porém, o pavor que o possuía, ante os religiosos de todos os matizes.
 
Detestava os padres católicos, criticava as organizações protestantes e categorizava os espíritas no rol dos loucos.
 
Aceitava Jesus a seu modo, não segundo o próprio Jesus.
 
As facilidades econômicas transitórias adiavam-lhe as lições benfeitoras do concurso fraterno, no campo da vida.
 
E cada vez mais se convencia de que as melhores diretrizes eram as dele mesmo.
 
Afastamento individual para evitar complicações e desgostos. Admitia, sem rebuços, que assim efetuaria preparação adequada para a existência depois do sepulcro.
 
Em vista disso, a desencarnação de homem tão cauteloso em preservar-se, passaria por viagem sem escalas com o destino à Corte Celeste.
 
Dava aos familiares dinheiro suficiente para aventuras e fantasias, a fim de não ser incomodado por eles; distribuía esmolas vultuosas, para que os problemas de caridade não lhe visitassem o lar; afastava-se do mundo para não pecar.
 
Não seria Joaquim Sucupira perguntavam amigos íntimos, o tipo religioso perfeito?
 
Distante de todas as complicações da experiência humana, pela força da fortuna sólida que herdara dos parentes, seria impossível que não conquistasse o paraíso.
 
Contudo, a responsabilidade que o defrontava agora não correspondia à expectativa geral.
 
Joaquim Sucupira, desencarnado, ingressava numa esfera de ação, dentro da qual parecia não ser percebido pelos grandes servidores celestiais.
 
Via-os em movimentação brilhante, nos campos e nas cidades.
 
Segredavam ordens divinas aos ouvidos de todas as pessoas em serviço digno.
 
Chegara a ver um anjo singularmente abraçado à uma velha cozinheira analfabeta.
 
Em se aproximando, todavia, dos Mensageiros do Céu, não era por eles atendido.
 
Conseguia andar, ver, ouvir, pensar.
 
No entanto, desventurado Joaquim!!!
 
As mãos e os braços mantinham-se inertes, semelhavam-se a antenas de mármore, irremediavelmente ligadas ao corpo espiritual.
 
Se intentava matar a sede ou a fome, obrigava-se a cair de bruços porque não dispunha de mãos amigas que o ajudassem.
 
Muito tempo suportara semelhante infortúnio, multiplicando apelos e lágrimas, quando foi conduzido por entidade caridosa a pequeno tribunal de socorro, que funcionava de tempos em tempos, nas regiões inferiores onde vivia compungido.
 
O benfeitor que desempenhava ali funções de juiz, reunida a assembléia de Espíritos penitentes, declarou não contar com muito tempo, em face das obrigações que o prendiam nos círculos mais altos e que viera até ali somente para liquidar casos mais dolorosos e urgentes.
 
Devotados companheiros do bem selecionaram a meia dúzia de sofredores que poderiam ser ouvidos, dentre os quais, por último, figurou Joaquim Sucupira, a exibir os braços petrificados.
 
Chorou, rogou, lamuriou-se.
 
Quando pareceu disposto a fazer o relatório geral e circunstanciado da existência finda, o julgador obtemperou:
 
- Não, meu amigo, não trate de sua biografia.
 
O tempo é curto. Vamos ao que interessa.       
 
 Examinou-o detidamente e observou, passados alguns instantes:
 
- Joaquim, você era casado?        
 
- Sim.        
 
- Zelava a residência?        
 
- Minha mulher cuidava de tudo.        
 
- Foi pai?        
 
- Sim.        
 
- Cuidava dos filhos em pequeninos?        
 
- Tínhamos suficiente número de criadas e amas.        
 
- E quando jovens?        
 
- Eram naturalmente entregues aos professores.        
 
- Exerceu alguma profissão útil?        
 
- Não tinha necessidade de trabalhar para ganhar o pão.    
 
- Nunca sofreu dor de cabeça pelos amigos?
 
- Sempre fugi, receoso das amizades. Não queria prejudicar, nem ser prejudicado.
 
O julgador interrompeu-se, refletiu longamente e prosseguiu:
 
- Você adotou alguma religião?
 
- Sim, eu era cristão - esclareceu Joaquim Sucupira.
 
- Ajudava os católicos?
 
- Não. Detestava os sacerdotes.
 
- Cooperava com as Igrejas reformadas?
 
- De modo algum. São excessivamente intolerantes.
 
- Acompanhava os espíritas?
 
- Não. Temia-lhes presença.
 
- Amparou os doentes em nome do Cristo?
 
- A terra tem numerosos enfermeiros.
 
- Auxiliou criancinhas abandonadas?
 
- Há creches por toda parte.
 
- Escreveu alguma página consoladora?
 
- Para quê? O mundo está cheio de livros e escritores.
 
- Utilizava o martelo ou o pincel?
 
- Absolutamente.
 
- Socorreu animais desprotegidos?
 
- Não.
 
- Agradava-lhe cultivar a terra?
 
- Nunca.
 
- Plantou árvores benfeitoras?
 
- Também não.
 
- Dedicou-se ao serviço de condução das águas, protegendo paisagens empobrecidas?
 
Joaquim Sucupira fez um gesto de desdém e informou:
 
- Jamais pensei nisto.
 
O instrutor indagou-lhe sobre todas as atividades dignas conhecidas no Planeta.
 
Ao fim do interrogatório, opinou sem delongas:
 
- Seu caso explica-se: - Você tem as mãos enferrujadas.
 
Ante a careta de Joaquim Sucupira amargurado, esclareceu:
 
- É o talento não usado, meu amigo.
 
Seu remédio é regressar à lição.
 
Repita o curso terrestre.
 
Joaquim Sucupira, confundido, desejava mais amplas elucidações.
 
O juiz, porém, sem tempo de ouvi-lo, entregou-o aos cuidados de outro companheiro.
 
Rogério, carioca desencarnado, tipo 1945, recebeu-o de semblante amável e feliz, após escutar-lhe as compridas lamentações, convidou, pacientemente:
 
- Vamos Joaquim Sucupira. Você entrará na fila em breves dias.
 
- Fila? - interrogou Joaquim Sucupira, boquiaberto.
 
- Sim - acrescentou o alegre ajudante -, na fila da reencarnação.
 
E, puxando Joaquim Sucupira pelos ombros o que você precisa, Joaquim Sucupira é de movimento...
 
Humberto de Campos
Psicografia de Francisco Cândido Xavier
Do livro "Luz Acima" 
 
 
 
 
 




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