A ARGENTINA VIVE A MALDIÇÃO DO DÓLAR por Clovis Rossi

Jefferson Severino - 05/05/2018 SC 01571 JP

A ARGENTINA VIVE A MALDIÇÃO DO DÓLAR
por Clovis Rossi
 
Para domar a moeda americana, governo Macri ataca o crescimento
O presidente argentino Mauricio Macri durante evento na Casa Rosada, em Buenos Aires - Gustavo Garello - Associated Press
 

 

Bateu um frio na espinha ao ler, na sexta-feira (4), a avaliação que o governo argentino fez, segundo o jornal Clarín, a respeito da forte turbulência no mercado cambial na semana passada.
 
Depois que, na mesma sexta, o banco central aumentou (de novo) os juros, para escandalosos 40%, a cotação da moeda americana teria atingido um ponto de equilíbrio. E teria ficado demonstrado “o poder de fogo” que o governo acha ter para controlar o câmbio.
 
Voltei 37 anos no tempo. Em 1981, a Argentina trocou um general-presidente (Jorge Rafael Videla) por outro (Roberto Viola). Despachou o então ministro da Economia, José Alfredo Martínez de Hoz, que mantivera o câmbio praticamente congelado, e entronizou um burocrata chamado Lorenzo Sigaut.
 
Sigaut pronunciou então uma frase que se tornou famosa: “Quem apostar no dólar vai perder”.
 
Eu era correspondente em Buenos Aires e estava presente no dia em que o mesmo Sigaut deu uma entrevista coletiva para anunciar uma desvalorização de 30% do peso. Equivalia, pois, a dar de saída um ganho de 30% em quem tivesse apostado no dólar.
 
Depois dessa desvalorização inicial, vieram dezenas de outras. O peso é que passou a não valer nada.
 
Não estou dizendo que o poder de fogo que o governo de Maurício Macri apregoa será tão ilusório quanto a derrota da aposta no dólar, proclamada há 37 anos. Mas é evidente que a Argentina continua prisioneira da desconfiança em sua moeda e, por isso, fascinada pelo refúgio seguro representado pelo dólar.
 
 
É uma situação que atravessou a ditadura e a democracia, um governo mais ou menos de esquerda como os dos Kirchner e um governo de direita como o de Macri.
 
Essa anomalia ajuda a entender por que o peso está sofrendo mais do que quase todas as moedas de emergentes nesta hora de turbulência.
 
É como escreveu o jornalista Gustavo Bazzan para o Clarín: “Demonstra-se outra vez que, quando as dúvidas invadem os mercados, a Argentina é a primeira a sofrer as consequências”, porque “a economia local é a que parece mais vulnerável por sua forte dependência de capitais externos que financiem o gradualismo [no ajuste das contas públicas]”.
 
Presa nessa armadilha, a Argentina jogou os juros lá para cima e anunciou um corte de despesas de cerca de US$ 3 bilhões (R$ 10,5 bilhões) no gasto público.
 
Entra, assim, em outra armadilha: para tranquilizar os investidores sobre o déficit, mina as chances de crescimento econômico, ao tornar o dinheiro mais caro e ao reduzir as despesas públicas.
 
Como o crescimento previsto pelo FMI (2%) já é dos mais baixos na América Latina e, assim mesmo, a inflação se mantém elevada (19,2%, prevê o Fundo Monetário Internacional), cai-se na conhecida situação de se correr, o bicho pega, se ficar, o bicho come.
 
A mediocridade no crescimento, com suas sequelas sociais inevitáveis, é uma característica de quase toda a América Latina, sem que apareça alguém capaz de encontrar um caminho para desarmar essas bombas de tempo que periodicamente explodem.
 
Clóvis Rossi
É repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha. É vencedor do prêmio Maria Moors Cabot.
 

 

 





« Leia outros artigos