ACHO QUE ELE PULOU por Humberto Ellery

Jefferson Severino - 30/04/2018 SC 01571 JP

ACHO QUE ELE PULOU
por Humberto Ellery

 
 
Meus caros, eu tenho um sobrinho, chamado Paulo Eduardo, que, quando criança, foi uma das mais traquinas que eu conheci. Aliás devo confessar que ¨me amarro¨em crianças  ¨levadas¨. Talvez por um fenômeno de identificação: ¨quando eu era criança pequena¨meu pai me apelidou de ¨Vendaval Louro¨. O vendaval é auto-explicativo, o louro fica por conta do meu cabelo castanho claro, que para os padrões de morenice cearense era¨bem dizer¨louro.
 
Voltando ao Paulo Dudu, como eu o chamo (ele é filho do meu irmão Eduardo (Dudu) Ellery), vou contar uma, dentre várias ¨estrepolias¨de sua extensa ¨folha corrida¨. A sua avó materna, Dona Elvira, quando enviuvou foi morar na casa do meu irmão que é casado com sua filha Ioneda, minha cunhada. Muito religiosa passava boa parte do tempo rezando, e mantinha na sala da casa um santuário atulhado de santos de todos os tamanhos e materiais, fosse gesso, madeira, porcelana, alguns que eu nem suspeitava da existência.
 
Certo dia o Paulinho se aproximou do bendito santuário e, buliçoso que era , começou a mexer. Dona Elvira, que silenciosamente ¨debulhava¨um terço, interrompeu suas orações para admoestar o neto: ¨Paulinho, não mexa nos meus santos¨. ¨Tô mexendo não, vovó, tô só olhando¨, respondeu o anjinho. ¨Paulinho, a gente olha com os olhos, e não com os dedos¨continuou Dona Elvira. 
 
No momento seguinte: Crás! um santinho de gesso espatifou-se no chão. Dona Elvira levantou-se rapidamente e dirigiu-se ao santuário e, já meio chorosa, ralhou com o neto: ¨Paulinho, viu o que você fez? quebrou meu santinho¨. ¨Fui eu não, vovó¨, respondeu com convicção o peralta. ¨Como não foi você, Paulinho. Aqui só estava você. Como pode ser isso?¨
 
E o Paulinho, bem compenetrado, como quem conta um segredo, sussurrou: ¨Vovó, eu acho que ele pulou!¨ 
 
Esse fato surgiu na minha memória ao assistir o noticiário sobre a investigação do caso Rodrimar, quando o ministro Barroso, que já havia prorrogado a infindável investigação por sessenta dias, concedeu mais outros sessenta dias à Polícia Federal prá ver se finalmente encontram algum delito incriminando o Presidente Temer. Acho que se investigassem minha vida com tanto denodo e persistência iriam acabar descobrindo que fui eu que matei o Kennedy. O Presidente Temer, bastante irritado, se queixou do fato de seus advogados, mesmo requerendo formalmente à PF, não terem acesso a informações, que correm em sigilo, e, no dia seguinte, ler nos jornais trechos selecionados do Inquérito¨sigiloso¨que, fora do contexto, parecem comprometedores.
 
Algumas pessoas maldosas, mentirosas e totalmente irresponsáveis, afirmam que esses ¨vazamentos¨rendem verdadeiras fortunas aos vazadores. Tais vazadores, lá de dentro,  extrairiam trechos do Inquérito e os venderiam aos órgãos de imprensa, que os publicam sem nenhum pudor. Dizem que no MPF é a mesma coisa.  É óbvio que não acredito nisso. Só pode ser mentira, fake news. Também não acredito que algum ¨repórter investigativo¨, na calada da noite, tenha acesso ao prédio da PF, se dirija aos últimos andares da instituição e subtraia a matéria ¨vazada¨. Seria preciso o Tom Cruise para essa ¨missão impossível¨.
 
Os próprios delegados federais afirmaram em nota oficial que não favorecem nem perseguem ninguém. Eu acredito piamente, foi Papai Noel quem me confirmou. Eu, pelo menos, não tenho mais dúvidas. Sabe como esse pacote de informações sigilosas saiu dos últimos andares do prédio da PF e foi parar na Folha de São Paulo? 
 
¨Acho que ele pulou¨, como diria o Paulinho.
 
Humberto Ellery
hg.ellery@hotmail.com




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