MÃE - Humberto de Campos

Jefferson Severino - 05/04/2018 SC 01571 JP

MÃE
Humberto de Campos

 
Quando Jesus ressurgiu do túmulo, a negação e a dúvida imperavam no círculo dos companheiros.
 
Voltaria Ele?... perguntavam, perplexos.
 
Quase impossível.
 
Seria Senhor da Vida Eterna quem se entregara na cruz, expirando entre malfeitores?
 
Maria Madalena, porém, a renovada, vai ao sepulcro de manhãzinha. E, maravilhosamente surpreendida, vê o Mestre, ajoelhando-se-lhe aos pés. Ouve-lhe a voz repassada de ternura, fixa-lhe o olhar sereno e magnânimo.
 
Entretanto, para que a visão se lhe fizesse mais nítida, foi necessário organizar o quadro exterior. O jardim reacendia perfumes para a sua sensibilidade feminina, a sepultura estava aberta, compelindo-a a raciocinar.
 
Para que a gravação das imagens se tornasse bem clara, lavando-lhe todas as dúvidas da imaginação, Maria julgou a princípio que via o jardineiro.
 
Antes da certeza, a perquirição da mente precedendo a consolidação da fé.
 
Embriagada de júbilo, a convertida de Magdala transmite a boa-nova aos discípulos confundidos. Os olhos sombrios de quase todos se enchem de novo brilho.
 
Outras mulheres, como Joana de Cusa e Maria, mãe de Tiago, dirigem-se, ansiosas, para o mesmo local, conduzindo perfumes e preces gratulatórias.
 
Não enxergam o Messias, mas entidades resplandecentes lhes falam do Mestre que partiu.
 
Pedro e João acorrem, pressurosos, e ainda vêem a pedra removida, o sepulcro vazio e apalpam os lençóis abandonados.
 
No colégio dos seguidores, travam-se polêmicas discretas.
 
Seria? Não seria?
 
Contudo, Jesus, o Amigo Fiel, mostra-se aos aprendizes no caminho de Emaús, que lhe reconhecem a presença ao partir do pão e, depois, aparece aos onze cooperadores, num salão de Jerusalém.
 
As portas permanecem fechadas e, no entanto, o Senhor demora-se, junto deles, plenamente materializado.
 
Os discípulos estão deslumbrados, mas o olhar do Messias é melancólico. Diz-nos João Marcos que o Mestre lançou-lhes em rosto a incredulidade e a dureza de coração.
 
Exorta-os a que o vejam, que o apalpem.
 
Tomé chega a consultar-lhe a chagas para adquirir a certeza do que observa.
 
O Celeste Mensageiro faz se ouvir para todos.
 
E, mais tarde, para que se convençam os companheiros de sua presença e da continuidade de seu amor, segue-os, em espírito, no labor da pesca.
 
Simão Pedro registra-lhe carinhosas recomendações, ao lançar as redes, e encontra-o nas preces solitárias da noite.
 
Em seguida, para que os velhos amigos se certifiquem da ressurreição, materializa-se num monte, aparecendo a quinhentas pessoas da Galiléia.
 
No Pentecostes, a fim de que os homens lhe recebam o Evangelho do Reino, organiza fenômenos luminosos e linguísticos, valendo-se da colaboração dos companheiros, ante judeus e romanos, partos e medas, gregos e elamitas, cretenses e árabes.
 
Maravilha-se o povo.
 
Habitantes da Panfília e da Líbia, do Egito e da Capadócia ouvem a Boa-Nova no idioma que lhes é familiar.
 
Decorrido algum tempo, Jesus resolve modificar o ambiente farisaico e busca Saulo de Tarso para o seu ministério; entretanto, para isso, é compelido a materializar-se no caminho de Damasco, à plena luz do dia. O perseguidor implacável, para convencer-se, precisa experimentar a cegueira temporária, após a claridade sublime; e para que Ananias, o servo leal, dissipe o temor e vá socorrer o ex-verdugo, é imprescindível que Jesus o visite, em pessoa, lembrando-lhe o obséquio fraternal.
 
Todos os companheiros, aprendizes, seguidores e beneficiários solicitaram a cooperação dos sentidos físicos para sentir a presença do Divino Ressuscitado. Utilizaram-se dos olhos mortais, manejaram o tato, aguçaram os ouvidos...
 
Houve, contudo, alguém que dispensou todos os toques e associações mentais, vozes e visões.
 
Foi Maria, sua Divina Mãe.
 
O Filho Bem Amado vivia eternamente, no infinito mundo de seu coração.
 
Seu olhar contemplava-O, através de todas as estrelas do Céu e encontrava-Lhe o hálito perfumado em todas as flores da Terra.
 
A voz d’Ele vibrava em sua alma e para compreender-Lhe a sobrevivência bastava penetrar o iluminado santuário de si mesma.
 
Seu Filho - seu amor e sua vida - poderia, acaso, morrer?...
 
E embora a saudade angustiosa, consagrou-se à fé no reencontro espiritual, no plano divino, sem lágrimas, sem sombras e sem morte!...
 
Homens e mulheres do mundo, que haveis de afrontar, um dia, a esfinge do sepulcro, é possível que estejais esquecidos plenamente, no dia imediato ao de vossa partida, a caminho do Mais Além. Familiares e amigos, chamados ao imediatismo da luta humana, passarão a desconhecer-vos, talvez, por completo. Mas, se tiverdes um coração de mãe pulsando na Terra, regozijar-vos-eis, além da escura fronteira de cinzas, porque aí vivereis amados e felizes para sempre!
 
Humberto de Campos
Psicografia de Francisco Cândido Xavier
Do livro: Lázaro Redivivo
 
 




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