FACE OCULTA - por Fernanda Torres

Jefferson Severino - 02/04/2018 SC 01571 JP

FACE OCULTA
por Fernanda Torres
Ícone do Facebook em tela de celular - Mladen Antonov/AFP
 
O Facebook é o próprio navio pirata. Seu butim se baseia no livre mercado de dados dos usuários
 
Eu seria um homem feio, muito feio. Foi a conclusão a que cheguei, logo após me engajar num aplicativo, aparentemente inofensivo, que chegou a mim via Facebook.
 
Concordei com os termos de contrato sem lê-los, admito, e disponibilizei uma foto para, em seguida, admirar a hedionda versão masculina de mim mesma. Não postei. Primeiro, porque não costumo dividir com os outros o meu tempo mal gasto em futilidades; segundo, pelo horror do resultado.
 
Graças ao passatempo imbecil, meu nome, hoje, deve constar do catálogo mafioso da Cambridge Analytica, arregimentado por meio de informações pirateadas do Facebook. Caso a sujeira não tivesse vindo à tona, meu perfil corria o risco de contribuir, e talvez ainda corra, para a manipulação das eleições de outubro no Brasil.
 
O vídeo do Channel 4 em que o CEO da Cambridge Analytica, Alexander Nix, oferece seus serviços a um suposto interessado em ingressar na vida política do Sri Lanka é de vomitar de tão nojento. Nix sugere contratar prostitutas para obter imagens difamatórias de possíveis concorrentes e se vangloria das fake news. Não importa que sejam falsas, diz ele, contanto que as pessoas acreditem nelas.
 
Pressionado, o margarido Zuckerberg apareceu, com seu jeito de colegial do ensino médio que não possui bilhões na conta bancária, e pediu desculpas pelo maquiavélico uso de sua invenção.
 
A questão é que Aleksandr Kogan, o pesquisador que desenhou o modelo de prospecção de dados e o ofereceu para a Cambridge Analytica, não roubou as informações.
 
Kogan esqueceu a ética, mas se valeu do Facebook Graph API, que o próprio Face utiliza e disponibiliza para o uso comercial de informações dos usuários.
 
O Face é o próprio navio pirata. E não só ele. O Google, o YouTube, o Instagram e o Twitter também são corsários não regulados. Seu butim se baseia no livre mercado de dados. A pirataria está na gênese da internet.
 
Ano passado, quando os haters ameaçaram de morte minha mãe, contatamos o escritório da empresa no Brasil. Na época, pediram que aguardássemos até janeiro, quando um novo algoritmo entraria em funcionamento, visando barrar a difamação e a cultura do ódio impregnadas na rede.
 
Para minha surpresa, uma das principais mudanças anunciadas foi a de banir a influência da imprensa do Face.
 
A decisão se fundamentava no desejo de que a rede de relacionamento retornasse à pureza de sua origem, um lugar onde vovós saudosas compartilham os puns dos netinhos à distância.
 
Em vez de fortalecer a notícia apurada e regulamentada, da qual se conhece a fonte e a linha editorial do veículo que a publica, o Facebook privilegiava a fofoca e as fake news.
 
A decisão fez a Folha abandonar a sua página.
 
Em 2003, quando ainda estudava em Harvard, Zuckerberg lançou o Facemash, protoversão do Facebook, publicando fotos de estudantes para eleger os mais "quentes".
 
A brincadeira atraiu milhares de participantes em poucas horas, até ser interditada pela direção da universidade. Zuckerberg enfrentou, entre outras acusações, a de violação de privacidade, a mesma que encara agora, pela associação com a Cambridge Analytica.
 
Há algo de estranho numa empresa que permite a proliferação de perfis falsos, aconselhando o indivíduo lesado a criar uma página oficial a fim de combatê-los. Foi o que aconteceu comigo.
 
O Facebook sempre lavou as mãos, alegando ser apenas o veículo, e não o autor das injúrias, falsidades e difamações. Isso muda agora. Pela primeira vez, o próprio Zuckerberg fala em regulação.
 
Já não era sem tempo.
 
Fernanda Torres
É atriz e colunista da Folha desde 2010.
 




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