LIÇÃO EM JERUSALÉM - Humberto de Campos

Jefferson Severino - 08/03/2018 SC 01571 JP

LIÇÃO EM JERUSALÉM
Humberto de Campos

 

Muito significativa a entrada gloriosa de Jesus em Jerusalém, de que o texto evangélico nos fornece a informarão.
 
A cidade conhecia-o, desde a sua primeira visita ao Templo, e muita gente, quando de sua passagem por ali, acorria, pressurosa, a fim de lhe ouvir as pregações.
 
O povo judeu suspirava por alguém, com bastante autoridade, que o libertasse dos opressores.
 
Não seria tempo da redenção de Israel?
 
A raça escolhida experimentava severas humilhações.
 
O romano orgulhoso apertava a Palestina nos braços tirânicos.
 
Por isso, Jesus simbolizava a renovação, a promessa.
 
Quem operara prodígios iguais aos dele?
 
Profeta algum atingira aquelas culminâncias. A ressurreição de Lázaro, enfaixado no túmulo, com sinais evidentes de decomposição cadavérica, espantava os mais ilustres descendentes de Abraão. Nem Moisés, o legislador inesquecível, conseguira realização daquela natureza.
 
E o povo, naqueles dias de festa tradicional, se dispôs a homenageá-lo, em regra.
 
Receberia o profeta com demonstrações diferentes.
 
Mostraria aos prepostos de César que Jerusalém não renunciava aos propósitos de libertação, ciosa de sua autonomia, e, agora, mais que nunca, possuía um chefe político à altura dos acontecimentos.
 
Jesus, certamente, não atenderia às imposições dos sacerdotes e nem se submeteria ao suborno, ante as promessas douradas dos áulicos imperiais.
 
Em vista disso, quando o Mestre saiu de Betânia, a caminho da cidade, alinharam-se fileiras de populares, saudando-o festivamente.
 
Anciães de barbas encanecidas acompanhavam o coro dos jovens: - “Hosanas ao filho de David!”
 
As mulheres gritavam, entusiasticamente, amparando criancinhas a sustentarem, com graça, verdes ramos de palmeira.
 
Os discípulos, ladeando o Mestre, sentiam o efêmero júbilo rovocado pelo mentiroso incenso da multidão.
 
Os fiéis galileus, guindados inesperadamente ao cume da popularidade, inclinavam-se com desvanecimento, embriagados pelo triunfo.
 
De espaço a espaço, esse ou aquele patriarca fazia sinais a Pedro, Filipe ou João, convidando-os a se pronunciarem discretamente:
 
- Quando se manifestará o Messias?
 
Os interpelados assumiam atitude de orgulhosa prudência e respondiam, quase sempre, a mesma coisa:
 
- Estamos certos de que a homenagem de hoje é decisiva e o Messias dar-nos-á a conhecer o plano das nossas reivindicações.
 
Jesus agradecia aos manifestantes de Jerusalém com o olhar, mostrando, porém, melancólicos sorrisos.
 
Demonstrando compreender a situação, logo após, convocou os discípulos para uma reunião mais íntima, em que lhes diria algo de grave.
 
Interpelados por alguns amigos, Tiago e João, filhos de Zebedeu, informaram quanto ao anúncio do Mestre. Discutiria as questões do presente e do futuro, e, possivelmente, seria mais claro nas definições políticas da ação renovadora.
 
Por esse motivo, enquanto o Cristo e os companheiros tomavam a refeição frugal do cenáculo, verdadeira multidão apinhava-se, discreta, nas adjacências.
 
O povo aguardava informações do colégio apostólico, entre a ansiedade e a esperança.
 
Finda a reunião, e enquanto Jesus e Simão Pedro se demoravam em confidências, seis discípulos vieram, cautelosos, à via pública.
 
A fisionomia deles denunciava preocupações e desencanto.
 
Começaram os comentários, entre os intelectualistas de Jerusalém e os pescadores da Galiléia.
 
- Que disse o profeta? - perguntou o patriarca, chefe daquele movimento de curiosidade - Explicou-se, afinal?
 
- Sim - esclareceu Filipe com benevolência.
 
- E a base do programa de nossa restauração política e social?
 
- Recomendou o Senhor para que o maior seja servo do menor, que todos deveremos amar-nos uns aos outros.
 
- O sinal do movimento? - indagou o ancião de olhos lúcidos.
 
- Estará justamente no amor e no sacrifício de cada um de nós - replicou o Apóstolo, humilde.
 
- Dirigir-se-á imediatamente a César, fundamentando o necessário protesto?
 
- Disse-nos para confiarmos no Pai e crermos também nele, nosso Mestre e Senhor.
 
- Não se fará, então, exigência alguma? - exclamou o patriarca, irritado.
 
- Aconselhou-nos a pedir ao Céu o que for necessário e afirmou que seremos atendidos em seu nome - explicou Filipe, sem se perturbar.
 
Entreolharam-se, admirados os circunstantes.
 
- E a nossa posição? – resmungou o velho - Não somos o povo escolhido da Terra?
 
Muito calmo, o Apóstolo esclareceu:
 
- Disse o Mestre que não somos do mundo e por isso o mundo nos aborrecerá, até que o seu Reino seja estabelecido.
 
Espocaram as primeiras gargalhadas.
 
- Mas o profeta - continuou o israelita exigente - não assinou algum documento, nem se referiu a qualquer compromisso com as autoridades?
 
- Não - respondeu Filipe, sincero e ingênuo -, apenas lavou os pés dos companheiros.
 
Oh! para os filhos vaidosos de Jerusalém era demais.
 
Surgiram risos e protestos.
 
- Não te disse, Jafet? - falou um antigo fariseu ao patriarca. - Tudo isso é uma farsa.
 
Um moço pedante afiançou, depois de detestável risada:
 
- Muito boa, esta aventura dos pescadores!
 
Dentro de alguns minutos, via-se a rua deserta.
 
Desde essa hora, compreendendo que Jesus cumpria, acima de tudo, a Vontade de Deus, longe de qualquer disputa com os homens, a multidão abandonou-o.
 
Os discípulos, reconhecendo também que Ele desprezava todos os cálculos de probabilidade do triunfo político, retraíram-se, desapontados.
 
E, desde esse instante, a perseguição do Sinédrio tomou vulto e o Messias, sozinho com a sua dor e com a sua lealdade, experimentou a prisão, o abandono, a injustiça, o açoite, a ironia e a crucificação.
 
Essa, foi uma das ultimas lições d’Ele, entre as criaturas, dando-nos a conhecer que é muito fácil cantar hosanas a Deus, mas muito difícil cumprir-lhe a Divina Vontade, com o sacrifício de nós mesmos.
 
Humberto de Campos
Psicografia de Francisco Cândido Xavier
Livro: Lázaro Redivivo 
 
 




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