O BONECO - João de Deus

Jefferson Severino - 11/02/2018 SC 01571 JP

O  BONECO
João de Deus 

 

       Um dia vovó comentou que os doces — feitos por ela e minha mãe naquela manhã — haviam desaparecido do armário. E não sabia o que tinha sido feito deles.
 
       Embora nenhuma das duas parecesse de qualquer forma preocupada com a ocorrência, eu imediatamente disse:
 
       — Foram roubados.
 
       Elas me olharam surpreendidas, mas foi vovó quem estabeleceu conversação comigo.
 
       — Você tem certeza? ela perguntou.
 
       — Tenho! sustentei. E foi o Pedrinho.
 
       Pedrinho era um dos meus irmãos. Vovó insistiu:
 
       — Você tem certeza?
 
       — Se tenho! Foi o Carlucho quem me contou.
 
       — Minha filha, disse ela tranquila, passando o seu braço pelo meu, venha até o meu quarto. Quero lhe mostrar uma coisa.
 
       No quarto ela abriu a gaveta de uma cômoda e tirou, lá de dentro, um boneco que eu nunca tinha visto.
 
       — Veja como está bem vestido!
 
       Eu não estava entendendo. Aquilo nada tinha a ver com o caso dos doces. Ela prosseguiu:
 
       — Vá dizendo o que mais he chama a atenção neste boneco.
 
       —  Tem uma bonita roupa, uma camisa linda! respondi ao observar os punhos, o peitilho e o colarinho impecáveis.
 
       Assim que terminei de falar, minha avó tirou o paletó do boneco. Caí na gargalhada quando vi que da impecável camisa só havia os punhos, o peitilho e o colarinho.
 
       Mas, de súbito, compreendendo, me tornei muito séria.
 
       E vovó, abraçando-me a sorrir, disse concluindo:
 
       — Veja você como são as coisas. A gente só pode crer naquilo que vê. E do que se vê, muitas vezes é preciso acreditar apenas na metade. Você percebeu por que?
 
       Já se passaram muitos anos. Mas, sempre que sou levada, por certa irreflexão — tão comum nos seres humanos —, a julgar fatos ou pessoas pelas aparências, vem-me à lembrança a impecável camisa daquele boneco da vovó...
 
Se desejas teu caminho
 
Repleto de paz e luz,
 
Traze o amor de teu filhinho
 
Ao santo amor de Jesus.
 
João de Deus
Psicografia de João Nunes Maias
 




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