ESQUERDA QUE DEFENDE LULA NÃO LIGA PARA O POVO, SÓ PARA SEUS “QUERIDOS COMPANHEIROS” por Rodrigo Constantino

Jefferson Severino - 01/02/2018 SC 01571 JP

ESQUERDA QUE DEFENDE LULA NÃO LIGA PARA O POVO, SÓ PARA SEUS “QUERIDOS COMPANHEIROS”
por Rodrigo Constantino 
 
A leitura do GLOBO no domingo foi dose para leão, com textos de Verissimo e Aldir Blanc em defesa de Lula, além de uma entrevista com José Eduardo Cardozo, petista que defendeu Dilma no processo do impeachment. Mas de vez em quando os cinquenta tons de vermelho do jornal dão espaço para um breve raio de sol, que ilumina a escuridão. Foi o caso hoje.
 
Se o leitor encarar, na sequência, as colunas de José Casado e Carlos Andreazza, e depois o artigo de Adriano Gianturco, terá uma bela visão resumida de como a esquerda brasileira luta contra o povo, a igualdade, o cidadão, e em favor de seus “queridos companheiros”, do patrimonialismo, dos privilegiados, dos poderosos.
 
Casado mostrou um pouco do perfil dos “companheiros” africanos de Lula, aqueles que ele não poderá visitar agora, pois teve seu passaporte confiscado pela Justiça sob o risco de fuga após condenação em segunda instância. Eis uma palhinha da turma com quem Lula anda no “continente sombrio”:
 
Queixou-se por não poder estar com “o querido companheiro” Hailemariam Desalegn, primeiro-ministro etíope, cuja polícia matou mil opositores nos últimos 16 meses e recolheu outros 21 mil a “campos de reabilitação” — informa a Human Rights Watch em relatório deste mês.
 
Organismo comunitário, a União Africana foi erguida nos anos 90 pelo falecido ditador líbio Muammar Kadafi, na época isolado porque patrocinava atentados como o da bomba num avião da Pan Am, que espalhou 270 cadáveres sobre uma vila da Escócia. Kadafi apoiou Lula na campanha de 2002, segundo o ex-ministro Antonio Palocci, preso em Curitiba. Eleito, Lula foi a Trípoli. A visita a Kadafi para “negócios” , como definiu, está contada em livro dos repórteres Leonêncio Nossa e Eduardo Scolese.
 
A viagem do ex-presidente à Etiópia foi organizada pelo “companheiro e querido irmão” José Graziano, a quem elegeu diretor da FAO, braço da ONU para a agricultura. Graziano foi ministro do Fome Zero. Bom projeto, o Fome Zero logo virou peça de marketing político no exterior em 2003. Morreu de inanição governamental, estimulada pela má vontade do PT, então focado nos “negócios” do caso Mensalão.
 
Graziano inscreveu o antigo chefe num debate sobre fome com o “querido Obasanjo”, evento da cúpula africana sobre a luta contra a corrupção. Presidente da Nigéria (1999 a 2007), Olusegun Obasanjo recentemente foi declarado “avô da corrupção” pela Câmara de seu país, que constatou o sumiço de parte dos investimentos (US$ 16 bilhões) em projetos de energia.
 
Outros “companheiros” que Lula pretendia encontrar para “um abraço fraternal” eram Denis Nguesso (do Congo), Teodoro Obiang (da Guiné Equatorial), e Ali Bongo (do Gabão). O trio lidera dinastias cleptocratas que sustentam longevas ditaduras na África.
 
Os Nguesso colecionam 66 imóveis de luxo na França, segundo o Tribunal de Paris. Os Obiang escondiam uma conta bancária em Washington cujo saldo era quatro vezes e meia superior ao valor do patrimônio imobiliário da rainha Elizabeth II, da Inglaterra. Os Bongo foram apanhados em transferências diretas de US$ 130 milhões do Tesouro do Gabão para suas contas privadas no Citibank, em Nova York.
 
Sem passaporte, Lula não pode reencontrar os velhos amigos, no fim de semana em Adis Abeba, para explicar-lhes a sentença a 12 anos de prisão e porque ainda é réu em outros seis processos por corrupção.
 
Que time! Já Carlos Andreazza trata do tema do dia: Lula vai ou não ser preso? O STF vai ou não criar um jeitinho amigo só para aliviar a barra do camarada? Há ou não Justiça no Brasil, igualdade perante as leis? Diz o editor:
 
Isso — essa barbaridade, essa ignorância política, esse desrespeito à ordem institucional, deturpação que é o próprio sonho do lulismo — significa passar a mão na bunda da ideia de Justiça e transformar o que é um processo judicial em disputa eleitoral, como se o julgamento fosse exercício de exceção, como se o juiz fosse um oponente de Lula, o perseguido.
 
Estou errado? Não é essa a estratégia esquerdista, bovinamente chancelada por seus adversários? Ou será a universalização desse discurso pela classe política puro medo e método? Já defendi a tese de que políticos querem o ex-presidente candidato porque isso traduziria o absoluto triunfo da impunidade, a Lava-Jato tombada ante o establishment: se Lula, mesmo condenado em segunda instância, vencer tudo o que há contra si e puder (alguém descarta a possibilidade?) concorrer em outubro, o que significará haver fulminado a regra por meio da qual deveria ser preso e, em efeito dominó, a Lei da Ficha Limpa, que o tornaria inelegível, ninguém mais cairá. Mas esse é o cálculo dos políticos.
 
[…]
 
Lula jamais lidou com as ações que há contra si como matéria jurídica — ou teria trocado de advogado, né? Para ele, a condenação em segunda instância nunca foi dúvida. Tampouco lhe importava o placar do julgamento, porque os embargos que lhe interessam já estão interpostos faz tempo (com adesão luxuosa de adversários parvos ou apavorados, e de juízes covardes ou mal-intencionados): a politização radical dos processos judiciais e a judicialização extrema do processo eleitoral.
 
Politicamente, nesta altura, é erro primário de leitura analisar o tabuleiro para 2018 sem Lula, como se fosse uma peça que se pode suprimir, apagar, do jogo com uma sentença judicial; como se não fosse, ao contrário, a presença eleitoral em função da qual todos se organizam. Politicamente, preso ou não, com candidatura formalmente viável ou não, com nome na urna ou não, por meio de poste ou não: Lula será candidato.
 
A questão jurídica, no entanto, permanece a mesma: e aí, doutor, a lei é para todos ou não; Lula é homem comum ou não?
 
Liberais democratas e republicanos defendem a igualdade de todos perante as leis; esquerdistas defendem a “igualdade” de resultados e, para tanto, aplaudem a concentração de poder nos “ungidos” que estariam acima das leis, que não são “pessoas comuns”. O PT de Lula não inventou o patrimonialismo, mas certamente se serviu dele como poucos, até porque sua existência é perfeitamente compatível com a ideologia socialista na prática. Todo regime socialista criou uma nomenklatura que pairava acima das leis.
 
Por fim, o texto de Gianturco mostra justamente como quem pede mais estado num país como o Brasil, ou seja, toda a esquerda, defende na verdade não o “welfare state”, mas o “malfare”, a perpetuação de um esquema fechado que favorece a turma no poder à custa do povo, que impede a inclusão dos pobres no jogo político e econômico, apesar de toda retórica contrária. Diz o professor italiano:
 
Uma das tipologias mais clássicas é a liberal-democracia e a social-democracia. A primeira se caracteriza por liberdade de expressão e liberdades individuais respeitadas. A segunda por redistribuição, tendencial igualdade econômica, Welfare State. O Brasil não é nem uma nem outra. Aqui, a distribuição é regressiva (53,9% da arrecadação vêm das classes mais pobres, o Bolsa Família representa 0,5% do PIB, enquanto o BNDES 9%). Não há Welfare State, há “malfare”: muito State e pouco Welfare. O país também não é uma liberal-democracia plena: a liberdade de expressão é limitada. É o país cujo Judiciário mais remove conteúdo on-line do mundo, todos os dias se noticiam perseguições por opiniões, jornalistas são processados pelo mero exercício da profissão, os governos tentam continuamente interferir na mídia.
 
Pedir mais Estado significa pedir mais disso tudo. O Estado ideal de alguns está longe do Estado real. Antes, seria preciso mudar o modelo, inverter a estrutura de incentivos. Isso é o que aconteceu na Europa do Norte e nos países anglo-saxões, limitaram o poder do Leviatã, separaram os poderes, tomaram as rédeas, descentralizaram o poder com um federalismo real, colocaram os direitos individuais à frente da fome insaciável da máquina e colocaram o Estado relativamente mais a serviço do público.
 
Em suma, muitos leigos sensíveis olham o grau de miséria no Brasil, de desigualdade, de injustiças, de privilégios, e acaba sendo seduzido pelo discurso de esquerda. Eles acham que estão defendendo o modelo escandinavo; mas na prática estão defendendo figuras como Lula, Cabral, Cunha e Sarney. A única solução chama-se liberalismo!
 
Rodrigo Constantino - Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.




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