O MUNDO DESCOBRIU QUE LULA TAMBÉM É MORTAL por Pedro Henrique Alves

Jefferson Severino - 30/01/2018 SC 01571 JP

O MUNDO DESCOBRIU QUE LULA TAMBÉM É MORTAL
por Pedro Henrique Alves
 
O Lula é exatamente aquilo que denomino de “deus político”. A ele não importa o crime que cometa, a loucura que pregue, e nem as provas de sua má conduta, seus vassalos sempre estarão prontos para gritar seu nome e se martirizar por suas causas. O fato que vimos na esquerda em geral, durante e após o término do julgamento do caso tríplex, é um fenômeno que em outra época tive a chance de escrever sobre: os militantes parecem não se importar com as provas que mostram Lula como chefe dos esquemas de propinas entre as empreiteiras e políticos, nem com os favores ilícitos que ele recebeu em troca de sua influência e denominações de cargos. Não se importam com as três horas dispostas pelo desembargador João Pedro Gebran para ler em minúcias as provas materiais e testemunhos comprobatórios que colocavam Lula no centro do esquema corruptor; não importa, por fim, os fatos, e nem mesmo se o próprio ex-presidente em vídeo se declarasse culpado, ainda sim haveria militantes para construir uma conspiração qualquer a fim de justificar seu deus e suas doutrinas. Por fim, eu exorto para que se paremos de apresentar as provas recolhidas pelas investigações; é jogar pérolas aos porcos.
 
Em suma, para aqueles que se dispõe a adorar inviolavelmente um ídolo, prova nenhuma é capaz de convencê-lo da corruptividade de seu manipanso. Lula se tornou um mito político na mesma esteira de seus compadres: Che Guevara, Fidel Castro e Nicolás Maduro; ele se tornou uma espécie de símbolo que, a todo custo deve ser preservado. E, como bem sabemos, a mentalidade socialista gira em torno de finalidades e não de meios. Sendo assim, não importa se os meios utilizados por Lula foram ou não corruptivos, o que importa é o fim que se alcançará com a sua defesa. Por isso eu afirmo acima: prova alguma é suficiente para a esquerda; sempre haverá um porquê criado para justificar o ídolo, sempre haverá uma “conspiração política” pronta ser utilizada a fim de legitimar suas histerias.
 
Não obstante, numa democracia real, não há espaço para divindades humanas; nossa república não é gerida por deuses e nem por ídolos. Ao contrário do que Rousseau pensava, numa democracia não há lugar para uma religião civil, muito menos para um Leviatã estatal ― como quis Hobbes. A democracia se faz na finitude, a democracia se faz de efemeridades e possibilidades de equívocos; em Barbaria em Berlim, Chesterton simbolizava a sociedade como sendo uma união entre a montanha do ontem e o cume do amanhã, e essa ligação era feita por uma fina corda, a democracia. A democracia é, pois, uma fina e corruptiva corda que deve ser resguarda e protegida daqueles que tentam monopolizar as montanhas e se erguerem como titãs. Chesterton também afirmava, em Ortodoxia, que a sociedade era construída através da “democracia mortos”, isto é, do diálogo entre os mortos e os nascituros, a tradição e a ciência, nessa trama não há espaço para ídolos partidários, para semi-deuses.
 
A democracia é feita de homens e para homens, no paraíso o sistema político é uma monarquia absoluta, um reino onde a hierarquia celeste não permite o voto. Mas na terra, nossos líderes são todos feitos de carne, e como disse o desembargador Leandro Paulsen: “aqui ninguém pode ser condenado por ter costas largas, nem ser absolvido por ter costas quentes”. Lula sangra assim como eu e você, ele não é juridicamente isento de qualquer obrigação. Uma mulher que chora a morte de um filho e aplaude a morte de outro não pode ser chamada mãe; assim como uma sociedade que se excita com prisão de um delinquente enquanto sabota o julgamento de outro não é digna de ser chamada de democracia.
 
Se existe alguma igualdade possível nesse mundo parco e errante, essa igualdade está no fato de que ninguém está vagando sobre a lei. Parece tolice, mas deixe-me afirmar categoricamente, o Lula é um mero mortal submetido a todas as leis naturais e positivas que eu e você estamos. Acreditem.
 
José Osvaldo de Meira Penna afirma em seu livro: A ideologia do século XX: Ensaios sobre o nacional-socialismo, o marxismo, o terceiro-mundismo e a ideologia brasileira, seguindo as intuições de Carlos Rangel, que a América Latina possui um constante “sentir-se inferior”, e desse fato advém as paranoias constantes de que todos os nossos problemas são causas de terceiros: “porque os colonizadores”, “porque os escravagistas”, “porque os yankees”, “porque o capital exterior”. E nessa ladainha infinita adquirimos uma alma dependente e submissa; assim como nossos problemas sempre são causados por terceiros, se espera que eles também sejam resolvidos por um alquimista (ou político) qualquer possuidor de uma gnose (ou ideologia) salvadora. Do Estado ao vizinho, sempre é função de outro sanar nossas aporias.
 
E neste estado de espírito vegetativo, nos adaptamos à ideia que devemos ser adestrados, devemos possuir um líder que nos mantenha domados; um deus que se ergue sobre o Olimpo e nos diz o que fazer, o que falar e pensar. Isso é uma constante em várias partes do mundo, é verdade, mas com certeza vemos isso acentuado na América Latina. Se olharmos para o século passado veremos a ânsia que esse continente possui em encontrar, defender e até se martirizar em nome de um líder ou ideia que se erga como redentora. Um fenômeno moderno, afirma Eric Voegelin e Raymond Aron, de uma sociedade que perdeu o sentindo de transcendentalidade. Já que agora a religião não é mais escatológica, mas sim uma religião civil, então nosso deus também há de ser um homem.
 
“É verdade que o comunismo atrai ainda mais quando o trono de Deus está vazio. Caso o intelectual não se sinta mais ligado nem à comunidade nem à religião dos seus antepassados, ele pede às ideologias progressistas o pleno preenchimento da sua alma” (ARON, 2015, p. 267)
 
Lula assume no Brasil a imagem do imaculado, aquele que deve a todo custo ser liberto das amarras do capitalismo para que seu reino se faça real. Usa o esquema do “nós contra eles”, se ergue como o último cruzado contra os poderes da “elite”.
 
Ele disse em seu Twitter que não irá abaixar a cabeça para a elite brasileira. Não mesmo, não faz o tipo dele pedir propinas e favores de cabeça baixa. Muitos acham que isso é uma espécie de cruzada do “pobre” contra o capitalismo, saiba que Lula só foi condenado porque se chafurdou no lamaçal da corrupção monetária dos grandes capitais do ramo das empreiteiras. Ademais, como se chama aquele indivíduo que tem um triplex no Guarajá, uma cobertura em São Bernardo do Campo, e um sítio em Atibaia, senão “elite”? Ou vocês realmente acham Lula é um pobre?
 
É uma briga contra a lógica ― contra os fatos ― dizer que aquele que comprovadamente recebeu favores, propinas e endossos corruptos da “elite” é o Robbin Hood da sociedade brasileira. Isso já é um problema de esquizofrenia política, não se trata mais de defesa de princípios, mas sim de ausência de sanidade mental. Talvez Lyle H. Rossiter tenha razão.
 
Por fim, ontem vimos a condenação de um verdadeiro titã, um homem que a muitos é um híbrido de deus-homem, um ser que vivia inalcançável no cume de sua ideologia, cercado por servos que o protegiam e o glamourizavam com adornos de redentor. A democracia nacional dependia de uma resposta clara: afinal, a lei é ou não é para todos? Luiz Inácio Lula da Silva, sendo condenado, mostra que essa nação ainda nutre alguns princípios, que nem tudo está perdido. Ontem a justiça brasileira bateu na porta do Olimpo defasado e exigiu que o seu deus corrupto descesse de seu trono; mostrou que se a democracia existe, nela Lula também será tratado como mero cidadão.
 
Nunca as palavras de Sêneca ― filósofo romano ― se fez tão claro quanto nesse momento: “Vergonha daquele a quem, pela idade avançada, falta fôlego nos tribunais, defendendo causas vis e buscando o aplauso de um auditório ignorante” (SÊNECA, 2005, p. 82).
 
Pedro Henrique Alves - É Filósofo formado pela Faculdade Dehoniana; escritor na coluna de política do Instituto Liberal de Minas Gerais; editor e escritor do Blog Do Contra; além de estudioso de filosofia política com ênfase em políticas totalitárias.
 
Referência:
ARON, Raymond. O ópio dos intelectuais, Três estrelas: São Paulo, 2016.
SÊNECA, Lúcio Anneo. Sobre a brevidade da vida, L&PM: Porto Alegre-RS 2006.
 




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