A ÚNICA DÁDIVA - Emmanuel

Jefferson Severino - 11/07/2017 SC 01571 JP

A ÚNICA DÁDIVA 
Emmanuel


 

Conta-se que Simão Pedro estava cansado, depois de vinte dias junto do povo. Banhara feridentos, alimentara mulheres e crianças esquálidas, e, em vez de receber a aprovação do povo, recolhia insultos velados, aqui e ali... Após três semanas consecutivas de luta, fatigara-se e preferira isolar-se entre alcaparreiras amigas. Por isso mesmo, no crepúsculo anilado, estava ele só, diante das águas a refletir... 

Aproxima-se alguém, contudo... 

Por mais busque esconder-se, sente-se procurado. 

É o próprio Cristo. 

- Que fazes Pedro? – diz-lhe o Senhor. 

- Penso Mestre. 

E o diálogo prolongou-se. 

- Estás triste? 

- Muito triste. - Por quê? 

- Chamam-me ladrão. 

- Mas se a consciência te não acusa, que tem isso? 

-Sinto-me desditoso. Em nome do amor que me ensinas, alivio os enfermos e ajudo aos necessitados. Entretanto, injuriam-me. Dizem por aí que furto, que exploro a confiança do povo... Ainda ontem, distribuía os velhos mantos que nos foram cedidos pela casa de Carpo, entre os doentes chegados de Jope... Alegou alguém, inconsideradamente, que surrupiei a maior parte... Estou exausto Mestre. Vinte dias de multidão pesam muito mais que vinte anos de serviços na barca... 

- Pedro, que deste aos necessitados nestes últimos vinte dias? 

- Moedas, túnicas, mantos, ungüentos, trigo, peixe... 

- De onde chegaram as moedas?  

- Das mãos de Joana, a mulher de Cusa. 

- As túnicas? 

- Da casa de Zobalan, o curtidor. 

- Os mantos? 

- Da residência de Carpo, o romano que decidiu amparar-nos.

 - Os ungüentos? 

- Do lar de Zebedeu, que os fabrica. 

- O trigo? - Da seara de Zaqueu, que se lembra de nós...

 - E os peixes? 

- Da nossa pesca. 

- Então Pedro? 

- Que devo entender Senhor? 

- Que apenas entregamos aquilo que nos foi ofertado para distribuirmos em favor dos que necessitam. A Divina Bondade conjuga as circunstancias e confia-nos de um modo ou de outro os elementos que devamos movimentar nas obras do bem... Disseste servir em nome do amor... 

- Sim Mestre...

- Recorda então, que o amor não relaciona calúnias, nem conta sarcasmos.
 
O discípulo entremostrando súbita renovação mental não respondeu. 

Jesus abraçou-o e disse apenas: 

- Pedro, todos os bens da vida podem ser transmitidos de sítio a sitio e de mão em mão... Ninguém pode dar em essência esse ou aquele patrimônio do mundo senão o próprio Criador, que nos empresta os recursos por Ele gerados na Criação... E se algo, podemos dar de nos, o amor é a única dádiva que podemos fazer, sofrendo e renunciando por amor...

 O apostolo compreendeu e beijou as mãos que o tocavam de leve. 

Em seguida puseram-se ambos a falar alegremente sobre as tarefas esperadas para o dia seguinte. 

Emmanuel
Psicografia de Chico Xavier

 





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